Quantos de nós, alunos de universidades, participamos de pesquisas e nos arrependemos no meio do procedimento? Ficar sentado em uma cadeira, em frente a um computador, apertando botões ou clicando em cantos de tela não parece muito animador, certo?

Imagine ser uma criança e ser retirado de sua aula para participar de um procedimento chato ou pouco interessante. Imagine ter de responder uma enquete longa que parece não ter fim. Imagine permanecer em uma sala por mais de uma hora, tendo várias sessões de testes que parecem exatamente iguais.

Como pesquisadores, somos constantemente desafiados a conseguir participantes para nossos procedimentos. Mas por qual motivo por vezes temos tanta dificuldade em conseguir que participem?

A nova geração de cientistas tem sido bastante criativa: usamos memes e imagens chamativas em grupos de redes sociais. Usamos linguagem visual como marketing.

Algumas pesquisas podem parecer inerentemente mais divertidas e os participantes chovem, curiosos para saber mais ou para terem a chance de serem expostos aos procedimentos.

Nem todos os métodos podem ser tão apelativos, no entanto. Alguns professores oferecem créditos aos alunos que auxiliam como participantes em pesquisas de colegas. Alguns pesquisadores oferecem benefícios alimentícios. De qualquer forma, estamos constantemente pensando em formas de obter a preciosidade para conseguirmos nossos dados.

E quando finalmente temos nossos participantes…. Pode haver outro problema: por qual motivo por vezes parecem tão entediados?

Imagino que possa ser por desconsiderarmos um fator super relevante: a experiência do participante durante a pesquisa.


O que é UX?

User Experience ou Experiência de Usuário é um termo muito usado no contexto de mercado e é tão abrangente quanto poderia ser. Quando nós usamos os botões de um microondas para esquentar nosso almoço, estamos tendo uma experiência de usuário do microondas. Quando acessamos um site ou usamos um aplicativo e temos dificuldade para conseguir achar as informações que queremos, estamos tendo uma experiência de usuário péssima. Ao entrar em um restaurante com um ambiente interessante e com atendimento ótimo, isso é uma experiência de usuário. Quanto um psicoterapeuta se preocupa em ter um consultório agradável, está preocupado em como seus pacientes irão experienciar o local e suas impressões gerais do serviço.

Entre saber conduzir pesquisa de consumidor e ter ideias novas de como solucionar problemas reais de pessoas como eu e você, um UX designer precisa ter uma habilidade base: a empatia.

Há toda uma literatura acerca dessa temática e recomendo os livros do Donald Norman aos que se interessarem em se aprofundar. No entanto, a título de resmo, algumas das principais preocupações de um UX são:

  • Como a pessoa exposta aos serviços ou produtos irá se sentir e como irá se comportar.
  • O serviço ou produto é facilmente compreendido ou manuseado.
  • O design do produto é feito sob medida para o público alvo.
  • Feedbacks são constantemente coletados para melhorias futuras.

Como cientistas, criamos pesquisas para responder perguntas, testar hipóteses e atender objetivos claros. Quando precisamos de outras pessoas para obtermos nossos dados, pode ser de nosso interesse que tais pessoas tenham um experiência o mais positiva possível.


Como o UX poderia contribuir para a ciência?

Analisando alguns dos pontos acimas, podemos aplicá-los em nossas pesquisas, com nossos participantes:

A aplicação desses pontos poderiam contribuir no sentido de que:

  • Experiências reforçadoras como participante aumentariam a chance de voltarem a participar em outros estudos futuramente.
  • Experiências positivas poderiam aumentar a probabilidade de o participante se interessar por pesquisas científicas semelhantes ou diferentes. Um interesse maior em ciência por parte da população geral nunca foi tão importante como no momento em que nos encontramos.

O que isso significa?

Isso significa que magicamente poderíamos tornar nossas pesquisas mais interessantes ou menos entediantes aos participantes? Definitivamente não. No entanto, acho que deveríamos estar refletindo sobre o assunto. Esse aspecto é tão importante quanto qualquer outro aspecto de um procedimento científico. Os participantes estão nos auxiliando em nossas pesquisas e estão contribuindo para o avanço da ciência. Deveríamos tratá-los com empatia.

Certamente pesquisadores já possuem um número colossal de variáveis a considerar rigorosamente em seus estudos. Não é uma tarefa fácil. Também já temos de nos preocupar com as questões de ética (para quem não sabe, temos que submeter nossos projetos a um Comitê de Ética que nos dá aval para conduzir nossas pesquisas). Mas qualquer esforço a mais seria para um benefício a longo prazo: o estabelecimento, deveras lento – porém importante, de uma cultura de humanização na ciência. Dados podem ser números, mas cada número é proveniente de um indivíduo ou grupo.

Algumas pesquisas oferecem benefícios diretos aos que participam. Mas quando esse não é o caso ou, ainda, mesmo quando este seja o caso, há inúmeras maneiras que podemos nos esforçar para melhorar a experiência do participante. Podemos deixar as interfaces de nossos softwares mais atraentes. Podemos os tratar mais humanamente, perguntando posteriormente como se sentiram participando e mandando relatórios resumidos sobre nossos dados a todos que contribuíram. Podemos tornar nossas escalas mais interativas. Podemos tornar mais confortáveis as salas onde passarão várias horas em sessões experimentais. Podemos tornar as instruções do procedimento o mais claras possíveis e, se possível, até mesmo divertidas.

Tenho a opinião de que o humor, a arte e as relações interpessoais positivas melhorariam tanto a experiência de nossos participantes quanto a nossa própria experiência como cientistas em um mundo rigoroso que pode ser pouquíssimo motivador. Ter feedbacks positivos sobre nossa pesquisa e perceber que a população nota a relevância de nossos estudos seria um incentivo em tanto.

Aliás, poderíamos questionar sobre nossos próprios ambientes de estudo e trabalho científico em relação ao quanto contribuem para uma experiência saudável. Talvez um post exclusivo para essa temática venha logo a seguir! 😀

A ciência é construída em um esforço conjunto. A ciência pode ser artística e cheia de humor sem perder o seu rigor.

Livia Scienza

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